terça-feira, 30 de março de 2010

Mudanças II



sempre fui uma apaixonada por perfumes, texturas, beleza. claro, o que na época parecia ser apenas um apurado gosto meu, já era uma carinhosa referência ao meu trabalho envolvendo as artes visuais. façamos um teste bem simples...você consegue lembrar o cheiro da comida que sua avó fazia? parece bobagem, mas apelar para estas lembranças hoje, funciona como mais uma molinha para eu me manter firme no meu propósito de não pertencer a nenhum vício.
pois bem, eu fiquei muitos anos sem lembrar como era. porque fumantes não se "apegam" mais a coisas assim, voláteis. fumantes fumam, apenas isto. vão entorpecendo o cérebro, obrigando-o a fazer uso de outros recursos para "imprimir" perfumes diferentes na vida do fumante, ou seja, nenhum. porque com tanta provocação sensorial, todos os sentidos vão sendo sumária e cruelmente a[du]lterados. e aqui, desejo dar ênfase ao duo que considero paradisíaco: o paladar e o olfato. riquíssimos, e sem dúvida nenhuma, os mais sacrificados.
parece até proposital, e é. a nicotina e todos os seus apetrechos, fazem um excelente trabalho. sem o olfato apurado, você não percebe mais o quanto cheira mal e é inconveniente. sem o paladar, você emagrece e acha super normal não comer bem, nem muito, nem direito...não sentir mais qualquer falta de um chocolatezinho, uma fatia  daquela sobremesa que você brigava por ela no passado! engraçado, não acha?
eu hipotetizo e brinco a sério, que seja algo assim: como nosso cérebro é mesmo uma senhora máquina, ele reinventa as necessidades desse organismo fumante, e vai apagando tudo o que não faz mais parte deste universo...se a gente não lembra, não sabe mais fazer, não sente falta do que "não viveu". acho eu; pelo menos foi o que andei deduzindo depois da minha decisão contra o cigarro, a meu favor.
outro ponto intrigante. enquanto adolescente, eu dormia demais em alguns dias. em outros ficava insone e daí culpava o namoro, ou alguma coisa pela escola, ou uma briga com a melhor amiga. a tristeza dava vazão à insônia e muito pior que ela...
qualquer coisa ia se tornando um bom motivo para levantar e ir já, desde cedo, aperfeiçoando o maldito vício de fumar a qualquer hora, bastava estar de pé.


*quase dá para apostar que você está lembrando de que quando acorda, a primeira coisa que faz é acender um cigarro...acertei? pois é, nesse post eu resumo o que consegui lembrar quando isto começou a acontecer comigo. mais um item importante que deve entrar naquela primeira listinha das observações que fiz no primeiro post: "ser fumante não é fácil, não. você recebe treinamento."

Nenhum comentário: